ArtigosDestaque

Egipto, um exemplo da influência da Internet

The Revolution Will Not Be Televised

Este titulo é de uma música dos anos 70 e que está mais actual do que nunca. A Zwame não é um portal para comentar factos políticos, no entanto o que se passou no Egipto nas últimas duas semanas e meia e em ponto mais pequeno, o que se passou na Tunísia é um facto que ultrapassa a politica.
O que se passou foi um movimento social, onde a Internet teve uma enorme relevância.

Um mundo mais pequeno

A Internet não é um meio recente, mas nos últimos anos é algo que se “democratizou”, mesmo nos sítios mais remotos do mundo. Hoje em dia já não é preciso um computador que custa milhares de dólares e um modem a pagar ao minuto, para aceder à Internet.  Hoje em dia, muitas vezes basta ter um telemóvel.
Uma das coisas que não nos apercebemos é que muitos destes países que têm tido um desenvolvimento mais recente, eram muito pobres e não tinham infraestruturas a nível de comunicações e com a vaga da Internet, aproveitaram para criar infraestruturas completamente novas e muitas vezes mais modernas que os países mais desenvolvidos, onde se tem que evoluir, em vez de construir de raiz.

É óbvio que muitas destas pessoas nestes países, têm acesso a rádio e televisão, mas muitas vezes são meios extremamente controlados pelo poder politico ou são apenas meios locais.

No caso da Internet, é algo mais complicado. Não é que seja impossível controlar a Internet, como vemos no caso da China, mas é preciso um enorme investimento para tentar “desligar” tudo o que não gostam em todo o lugar. É quase impossível e por muito eficaz que possa ser, há sempre formas de dar a volta à censura, seja por proxies, vpns, etc.

A questão é que a rádio e a televisão tornaram o mundo mais pequeno, mas a Internet aproxima todos os seres humanos e pode envolver todos os outros meios de comunicação.
Na Internet, não existem distancias, não existem fronteiras e muito importante, há interactividade. Cada pessoa pode ter uma identidade na Internet e pode estar em qualquer lugar, virtualmente. Pode também intervir e passar mensagens, tornando cada pessoa um meio de comunicação. É como se tivéssemos todos os meios de comunicação em cada pessoa, sendo pear to pear.

O problema de muitos regimes é que há uma diferença entre gerações, entre quem está no poder e quem se está a manifestar e a geração que está no poder, não percebe por completo todo o poder das novas tecnologias.

O que se passou no Egipto

Para tentarmos perceber o que se passou, temos que começar ainda antes das manifestações.

Na Tunísia, um país mais pequeno e com menos influência na região, tinha acabado de acontecer uma revolução, onde a Internet foi crucial e perguntaram ao chefe dos serviços secretos do Egipto, se o mesmo poderia acontecer o mesmo e a resposta foi um claro não, pois tudo era diferente. Um sistema politico mais sólido, mais controlado, etc. Estas declarações foram feitas 48 horas antes da primeira manifestação.

No inicio da contestação,  penso que o governo não deu grande importância às manifestações, o que parecia lógico, pois o Egipto tem um dos exércitos maiores e melhor equipados do mundo. O que é uma manifestação ao lado disto?
Mas o governo cometeu um grave erro, no inicio, as pessoas podiam continuar a usar a Internet e tudo o que lhe está associado, como telemóveis.
Isto fez com que as pessoas comunicassem com amigos dos amigos, colocassem publicamente os seus pensamentos, gravassem vídeos e colocassem na Internet, onde todos podem ver.

Penso que existiram três serviços que foram fundamentais para esta revolução.

Três sites que podem fazer toda a diferença do mundo.

Não digo que estes 3 sites foram os únicos a fazer a diferença, mas tiveram um grande impacto no que se passou a seguir.
Será que o governo se apercebeu que o Egipto é o oitavo país que mais usa o Facebook? Penso que não, pois se tivessem apercebido no que é possível organizar e mostrar nestes sites, tinham tentado controlar a Internet de forma muito apertada, ainda antes dos protestos.

Só passado uns dias dos protestos continuarem, é que o governo decidiu cortar as ligações de Internet e telemóvel e quando o fizeram, foi tarde demais. Isto porque as ligações sociais já estavam feitas, os lugares onde se combinaram as manifestações já estavam marcadas.
Quanto o governo tomou essa iniciativa, era tarde demais e pior, os outros órgãos de comunicação social, como a Aljazeera, uma cadeia de televisão no centro do mundo árabe, transmitiram a mensagem que o governo estava em desespero para conter o que se estava a passar e só deu mais energia aos manifestantes, pois demonstrou que o seu governo os queria calar, numa altura em que o grito de revolta já estava nas ruas.

Mas existiram outros acontecimentos importantes. Por exemplo o executivo para o Marketing da Google (Wael Ghonim), para aquela região, foi para o Egipto manifestar-se e com o seu poder, dar visibilidade aos protestos.

Foi preso e notícia em todo o mundo, porque o governo não comunicou nada sobre a sua prisão e foi dado como desaparecido. Quando perceberam que o que tinham feito, teve o resultado contrário, libertaram-no, mas sem qualquer explicação.

Conclusão

É óbvio que sem haver um descontentamento generalizado da população, a Internet não faz nada por si própria. O que acontece é que a Internet pode tornar os acontecimentos mais rápidos, mais públicos.

Depois de dois países do médio oriente, onde a Internet teve uma função muito importante na revolução, é difícil saber o que vai acontecer a seguir. Será que isto foi uma “queda do muro” como na Alemanha e espalhar-se para o resto da região?

Penso que é complicado fazer um prognóstico. Os governos repressivos naquela região, vão-se tentar proteger o máximo possível e vão dar muito mais importância à Internet.
Nunca me inscrevi num site de redes sociais e até sou um pouco contra este tipo de sites, mas tenho que admitir, que nestes dois casos, tiveram uma enorme importância.

Mesmo no fim de tudo, a Internet não deixou de ter importância.
Ontem durante o dia, o Youtube colocou um banner em todos os vídeos, para o stream directo da Aljazeera em inglês. Aqui fica o link.
Uma das piadas que corria no Egipto era que o presidente Mubarak era morto e chagava ao céu. À sua espera estava o antigo presidente Sadat que lhe diz “Eu fui morto por tiros e tu?”, ao que Mubarak responde “Facebook!”.
Por último e para quem tenha dúvidas, há um site que numa palavra diz tudo. Fica aqui o link.

Etiquetas

Artigos Relacionados

Close
Close