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O PC está morto

A morte anunciada do PC

No início da história moderna da computação apareceram os computadores enormes, dentro de salas, com pouca capacidade de cálculo em que só cientistas tinham acesso a eles. Tudo era extremamente complicado, comparado com os dias de hoje, mas como tinha alguma vantagem em processar cálculos, comparado com um ser humano, a extrema complicação para se manter um sistema daqueles, valia a pena.

Foi-se evoluindo, lentamente, até que se chegou ao ponto que, primeiro o sector público e depois o privado, deram-se conta que mesmo gastando enormes quantias de dinheiro, um computador poderia ajudar em muito em tarefas que feitas por humanos, demoraria múltiplas vezes mais tempo.

Isso provou-se com previsões de resultados eleitorais, cálculos fiscais, etc.

No sector privado empresas que precisavam de resultados rápidos e fiáveis, seguiram o mesmo caminho, mas surgiu um pequeno problema. Alguém teria que colocar lá todos os dados e passar os resultados às várias partes de uma empresa.

Como na altura era impossível cada trabalhador ter um computador, chegou-se à solução de terminais. Isto é, que tinham como única função ligarem-se ao computador central (mainframe). Com isso, surgiu também a necessidade de redes, ainda que primitivas, que fizesse a comunicação.


O interface nesses tempos (e que ainda hoje permanece em alguns sectores) para o utilizador era relativamente simples. Um ecrã normalmente preto e verde e um teclado para input nos campos disponíveis. Claro que todo o processamento era feito do lado do servidor e o terminal não tinha qualquer função sem ser a de disponibilizar um interface ao utilizador, estando ele num local remoto.

Não havia propriamente um conceito de GUI. Servia mais para evitar formulários, máquinas de escrever e cálculos que poderiam levar muito mais tempo que um computador.

A evolução tecnológica foi avançando a bom ritmo, com a miniaturização dos componentes, preços mais baratos, a partir de processadores inicialmente pensados para calculadoras, alguns amadores, começaram a experimentar criar algo mais abrangente. Claro que isto eram grupos muito pequenos e restritos, com caixas que serviam mais para passatempo e competição que outros efeitos práticos.

No entanto, várias empresas, grandes e pequenas, foram reparando no fenómeno e começaram a vender computadores ao público. O primeiro “boom” do PC penso que foi o primeiro IBM PC, por várias razões. Não era o mais avançado, mas a Compaq fez reverse engineering à bios, criando a possibilidade de outras marcas fabricarem computadores ao mesmo nível que a toda poderosa IBM.

Apesar de tudo, este mercado era extremamente pequeno, porque apesar de tudo um computador ainda custava uns milhares de dólares e era algo para empresas, universidades e os mais abastados.

No entanto tinha começado a era do PC, em que se iria tornando cada vez mais o centro do mundo informático.
Surgiu uma indústria completamente nova, com crescimentos extraordinariamente rápidos e lucros que começaram a bater qualquer outro sector de mercado. Personagens, egos e guerras foram criados e tornou-se um mundo extremamente excitante, devido à constante evolução.

Apesar de considerar rápida esta evolução, é mais lenta do que assistimos hoje em dia. Houve vários marcos que marcaram a era do PC. O transístor, o primeiro IBM PC, o primeiro Macintosh, o Windows 3.11 for workgroups, o Windows 95, a guerra entre Intel e AMD pelo Ghz, os primeiros portáteis, etc.

Durante este tempo foram criados outros dispositivos com mais ou menos sucesso, como por exemplo os PDAs, no entanto o mundo rodava à volta do PC.

Existem várias razões para a morte do PC, que vou tentar resumir em três.

Primeiro, o aparecimento do telemóvel. A história do telemóvel não é muito diferente do PC, o que não me pareceu tão previsível, é que ele se tornasse tão importante.

No início eram pesados, caros, com pouca duração de bateria e com pouca cobertura. Era um nicho de mercado, só mesmo para quem podia e tinha necessidade de falar ao mesmo tempo que tinha mobilidade.

Os telemóveis durante muito tempo serviam apenas para isso, falar, entanto este mercado não ficou parado. Apareceram os SMS, os planos pré pagos, a diminuição dos dispositivos, baterias com maior duração e telemóveis cada vez mais baratos.

Surgiram também as primeiras redes de dados, muito depois e que ainda hoje está em processo de desenvolvimento e massificação.

No entanto, houve um produto que quebrou com todas as regras e tornou o telemóvel em muito mais do que um dispositivo de comunicação.

Esse produto foi o Apple iPhone. Se virmos bem, não apareceu assim há tanto tempo, mas foi uma pedra no charco.
Desde a elegância que pontua os produtos da Apple, a capacidade de processamento, um sistema operativo completamente diferente e fácil de usar, até ao uso de rede de dados para aplicações, tudo mudou.

Lembro-me bem do lançamento do iPhone e do espanto das pessoas. As fotos mostravam uma admiração pelo dispositivo como se fosse uma obra de arte. As lojas encheram. As notícias do seu lançamento correram todo o mundo pelos órgãos de informação.

No entanto não foi a primeira vez que tinha visto tal coisa. Quem se lembra do passado, recorda-se do lançamento do Windows 95 e toda a expectativa criada à volta dele. As mesmas filas, as mesmas notícias nos órgãos de comunicação social.

O lançamento do iPhone veio mostrar a primeira queda do PC, pois apareceu algo mais excitante para o público em geral do que o PC.

O segundo ponto chama-se Internet. Mais uma vez, começou por algo limitado a um grupo de pessoas, que se foi expandindo até à sua “democratização” dos dias de hoje.

O PC teve grande importância para a Internet e ainda têm, porque é normalmente o dispositivo pelo qual se acede à Internet. Primeiro com modems em que a velocidade era medida em Kbits até às ligações de hoje de dezenas ou centenas de Mbits.

A questão é que o acesso à Internet deixou de ser uma tecnologia em que se acede apenas por um meio físico. Apareceu o Wireless em casa das pessoas, em que além do PC, podem ligar outros dispositivos com essa capacidade e as redes de dados de operadoras de telemóveis, onde se pode aceder em todo o lado que tenha cobertura.

Esta evolução não está acabada, mas cada vez mais deixou de ser necessário precisar-se de um PC para aceder à Internet. O futuro, penso, que vai evoluir cada vez mais para esse sentido.

O terceiro ponto é um pouco mais complicado. A evolução do software não acompanhou a evolução do hardware no PC. Durante muito tempo do reinado do PC, sempre que saía um componente novo, era algo importante, mesmo para o público em geral, pois reduzia o enorme tempo que aplicações demoravam a executar, podiam correr aplicações mais avançadas e ter mais aplicações abertas ao mesmo tempo.

Não era raro, tentar-se comprar topos de gama de alguns componentes, mesmo a preços exorbitante.Isto começou a mudar com o aparecimento dos dual-core e evolução desenfreada das placas gráficas. O software genérico, ainda hoje, muitas vezes não está preparado para processamento paralelo e do lado dos jogos, além de as gráficas de topo se terem tornado absurdas em vários aspectos, do lado do software as empresas com o aumento dos custos de produção de um jogo, têm que pensar em atingir o máximo de mercado possível e não só o topo, seja com jogos para consolas que já estão desactualizadas relativamente ao PC, seja atingindo um mercado cada vez maior de PC com gráfica integrada.

Vejamos alguns exemplos. Pelo que está na internet, em slides da AMD, teremos a topo de gama deles a consumir 450 W. Pensem duas vezes neste número. Isto está completamente desfasado da realidade do mercado e de um consumidor mais comum.

Outro exemplo, que pode ser também da AMD. Este ano teremos um processador no mercado consumidor com 8 cores e não são 8 cores “fracos”. São 8 cores do mais evoluído que existe.A questão é, um utilizador normal precisa de 8 cores? Para um utilizador normal, não há software que seja necessário que precise de tal capacidade de processamento.
Um utilizador normal vai comprar uma gráfica que consome 450 W? Quando pode jogar os mesmos ou jogos exclusivos em consolas ou para jogos mais casuais (mas cada vez menos casuais, com a evolução da tecnologia), em telemóveis ou tablets que consomem 0.5 W.

Com isto não quero dizer que estes dois exemplos não fazem sentido de todo. Há segmentos e profissões que quantos mais cores e mais potentes forem os cpus, melhor, porque há software que precisa de todo o poder que existir. Nas placas gráficas, há sempre quem queira jogar com a melhor qualidade possível e software, que cada vez mais, usa o poder de computação de uma gráfica.

A questão é que estes pontos não são importantes para o consumidor em geral, pois não tira partido destes avanços e prefere gastar o seu dinheiro noutros dispositivos que não o PC. Estes componentes tornam-se assim cada vez mais para um nicho de mercado cada vez mais pequeno.

 

Conclusão

Apesar do título, que admito, é sensacionalista, não acredito que o PC vá desaparecer. Eu sei que ao ler o artigo, pode transmitir essa sensação, mas não. O que quero dizer, em poucas palavras, é que o PC deixou de ser o centro do mundo informático e com o passar do tempo vai ter uma quota de mercado cada vez mais pequena, em relação a outros dispositivos.

O PC vai continuar a evoluir, mas no futuro, vai ter uma presença cada vez menor nas nossas vidas.

O telemóvel, os tablets, televisões com conectividade à internet, consolas e produtos que ainda hoje não sonhamos, vão ocupar cada vez mais o tempo que era passado anteriormente à frente de um PC.
Mesmo em áreas em que o PC continua a ser importante, há uma “vaga” a nível de pensamento, para se voltar ao tempo das “mainframes”. Por exemplo, quando numa empresa se coloca os desktops a correr centralmente (VDIs) e são acedidos por um terminal que pouco consome. Mas quem diz um terminal, diz um tablet e já vi exemplos práticos disso.

Mesmo nos jogos, em que pode ser necessário um PC bastante caro, está-se a tentar evitar isso, com serviços de streaming dos próprios jogos, onde o processamento é feito num datacenter.
O exemplo mais conclusivo é a chamada “cloud”. Muitas vezes nem notamos, mas temos muitos dados que anteriormente estariam guardados no nosso PC, que estão algures na Internet, como por exemplo serviços de streaming de música ou o email, que ao estarem na “cloud” deixa de ser preciso um PC para aceder a esses serviços.

Pessoalmente, este é um artigo que me custa escrever, pois a minha vida são PCs, tanto pessoalmente com vários, como profissionalmente.
Não tenho quase nenhum interesse em telemóveis e tablets, no entanto “rendo-me” às evidências. No fórum da Zwame, a maior parte do movimento estão em secções deste tipo de dispositivos. Enquanto uma conferência como a MWC, ou anúncios de telemóveis e tablets têm uma cobertura global, eventos ligados a PCs tornam-se cada vez mais obscuros. Exemplo disso é que esta semana decorreu a Cebit, uma feira importantíssima e a cobertura do evento foi quase nula.

Vou sentir falta de quando o PC era o rei. Dos lançamentos quase semanais de processadores, de uma comunidade grande de overclock com coisas como Peltiers, Water-cooling, Phase-change cooling, Mods. Lojas mais ou menos pequenas que se dedicavam exclusivamente ao mundo PC, entre muitas outras coisas.
Isto não vai desaparecer por completo, mas vai-se tornar cada vez menos importante para as pessoas.
No entanto, tenho que admitir que neste mundo da informática, a primeira regra é estar atento e aceitar as mudanças. Tenho a certeza que pessoas mais velhas que eu têm saudades de outras coisas, como as BBS, mainframes e outras coisas que desapareceram ou que quase não são visíveis.

O PC teve os seus 15 minutos de fama. Agora é hora de outros entrarem para o ringue.

 

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