Aquisição da Motorola pela Google e suas implicações

por a 20 Agosto 2011 em Artigos, Destaque

A Google adquiriu a Motorola Mobility por 12,5 mil milhões de dólares.

É a maior aquisição individual da Google e tem deixado muitos analistas confusos. As patentes, necessidade de controlar o hardware, ganhar a guerra contra a Microsoft ou a Apple. Vamos falar um pouco de cada um destes aspectos.

Larry Page, fundador e CEO desde 4 de Abril deste ano substituindo Eric Schmidt  escreveu um artigo onde ilustra as mais recentes estatísticas referentes ao Android. Os números são impressionantes em qualquer escala que se pense. 150 milhões de dispositivos activados em 123 países por 231 operadoras com um crescimento de 550 mil dispositivos ao dia.

A questão sobre a aquisição da Motorola é perceber qual foi o motivo. Do ponto de vista financeiros esta é a maior aquisição de sempre por parte da Google. Somando o valor das anteriores 9 maiores aquisições da Google o número fica bastante abaixo desta aquisição.  Este valor também representa só por si praticamente os lucros da Google de dois anos (8,5 mil milhões de dólares em 2010 e 6,5 mil milhões em 2009).

Sobressaem ainda dois aspectos. Primeiro a Motorola não está a registar crescimento antes pelo contrário. Em segundo lugar a Google compromete-se a pagar 2,5 mil milhões de dólares à Motorola se falhar a compra desta. Do lado oposto o valor é de 375 milhões de dólares. Um excelente artigo sobre este assunto foi também escrito pelo Florian Mueller. Há neste tipo de aquisições várias entidades reguladoras tanto dos EUA como da Europa que terão que dar o aval à mesma.

Há quem defenda que a Motorola fez uma jogada fantástica. Não tratou de licenciar apenas as patentes mas sim de vender a empresa por um valor bem acima do seu valor real. Há rumores de que uma das armas da Motorola seria o interesse da Microsoft na sua aquisição. Pessoalmente não consigo perceber porque é que a Google se interessou por mais do que ter acesso às patentes da Motorola.

Patentes

Nenhuma história nos dias de hoje fica completa sem falarmos em patentes. Temos um artigo recente sobre este assunto. A Google tem sido alvo de vários processos contra o Android. A acção que mais tinta tem feito correr tem sido o processo movido pela Oracle, mas também é sabido que por exemplo a HTC paga á Microsoft 5 dólares por cada equipamento que vende com o sistema operativo Android. Perdeu recentemente o leilão sobre a compra das patentes detidas pela Nortel Networks para nem mais nem menos um consórcio formado pela Apple, Microsoft, RIM, EMC, Ericsson e Sony no valor de 4,5 mil milhões de dólares. As opiniões dividem-se entre jogada excelente por parte da Google e uma derrota pura e simples. Os valores oferecidos pela Google revelam alguns conhecimentos de matemática.

A Google tem sempre desvalorizado a questão das patentes mas recentemente algo mudou. Não é por se ignorar um problema que ele passa. A Google tinha até este negócio cerca de 2000 patentes, das quais 1000 foram compradas à IBM. Só da Nortel Networks o consórcio “ganhou” mais de 6000 patentes. Com a aquisição da Motorola adquire 17000 que poderão chegar às 24500 com as que ainda estão pendentes.

O Nilay Patel faz um bom sumário das várias acções em curso e de que forma este negócio pode afectar as mesmas.

Papel da Motorola no ecossistema Android

A Google diz que a Motorola vai funcionar separadamente, no entanto, teremos que ser muito ingénuos para pensar que a Google não fará tudo para que a Motorola tenha o maior sucesso possível. Tudo acaba num modelo que tem que funcionar. O modelo com mais sucesso tem sido o da Apple em que esta domina a parte de hardware e de do software. No caso desta não o licencia a ninguém. A Google seguiu o caminho de o disponibilizar sem custos mas teve no passado a preocupação de lançar equipamentos de modo a colocar uma fasquia em termos de qualidade e de liberdade. Não há personalizações nem bloqueios. Os equipamentos são livres. De notar que o primeiro equipamento (Nexus One) era um equipamento fabricado pela HTC e o segundo o Nexus S que ainda se encontra em comercial é fabricado da Samsung. Custa-me a acreditar que o próximo a existir não seja produzido pela Motorola. Também devemos ser justos quanto aos lançamentos da Motorola antes desta aquisição. A Motorola lançou o XOOM, o primeiro tablet com o Android 3.0 Honeycomb, a versão de Android com interface desenhado para esse formato, além de vários smartphones que tiveram bastante sucesso nos EUA. Actualmente a Samsung é a marca que mais equipamentos vende. A Motorola ao centrar-se em particular nos EUA tem pago o preço do sucesso da Apple com o iPhone. Dito isto, parece-me que a Motorola ganhou uma enorme vantagem sobre a concorrência e a Google ganha a possibilidade de fazer elevar a qualidade dos equipamentos melhorando a experiência de utilização. A Apple consegue uma excelente imagem porque apenas produz equipamentos caros com excelente funcionalidade como seja a autonomia, qualidade do ecrã tanto em termos de imagem como de toque, enquanto que no mundo Android temos equipamentos que se batem com o iPhone até equipamentos que podem ser adquiridos por 70€ junto das operadoras. É uma diferença enorme que se paga em termos de qualidade e experiência de utilização.

Samsung

A Samsung como já defendi no Zwamecast é o fabricante a seguir. Tem equipamentos com Android e Windows Phone. Produz os mais variados equipamentos e fornece componentes a várias marcas entre as quais a Apple. Além do Nexus S que já referi devem recordar-se que na última Google I/O que decorreu em Maio a Google ofereceu a todos os participantes um Samsung Galaxy Tab 10.1. Há claramente uma boa relação com a Google mas o custo da Samsung teria sido incomportável. Também não haveria interesse por parte da Samsung em não continuar a produzir equipamentos com o Windows Phone. Desconheço o dinheiro gasto no desenvolvimento do seu próprio sistema operativo com o nome de Bada, mas este não tem ganho tracção suficiente. É verdade que poderá licenciar o WebOS. À uns dias poderia haver mais dúvidas, mas com as notícias bombásticas da HP é difícil não pensar logo na Samsung como a empresa que tem mais possibilidades e interesse em explorar o WebOS. Esta também se vê numa posição estranha. A Motorola passa a ser da Google, a Nokia apostou e tem todo o backup necessário da Microsoft. A Samsung é assim a empresa amiga de todos, envolvida numa guerra com a Apple que acaba por não ter um parceiro de facto.

Outras marcas

Sobressai a HTC que poderia ter sido uma boa aquisição para a Google mas a questão das patentes deve ter falado mais alto. Os argumentos utilizados para a HTC podem ser os mesmos que para a LG. A RIM é uma carta fora do baralho. O futuro não parece nada risonho como pode ser visto no último equipamento que lançaram. A Nokia estava excluída devido à parceria com a Microsoft. Esta última, e veremos se a Nokia consegue inverter isso, não tem conseguido fazer crescer o número de Windows Phone como esperava. Muitas vozes se levantam contra o CEO Steve Balmer dizendo que se deveria demitir mas a questão é que o mercado hoje é bem diferente do que tínhamos à uns anos atrás. A história está cheia de exemplos de que nem sempre o melhor produto vence. Mas falta ver o sucesso ou não da ligação com a Nokia. Quem testou a nova versão do Windows Phone 7 não lhe poupa elogios e aos poucos a plataforma fica mais apelativa. A aquisição do Skype pela Microsoft poderá permitir trazer algo diferenciador. É curioso que sendo a Skype da Microsoft não há neste momento equipamentos que permitam tirar partido completo desta aplicação. Os equipamentos actuais não têm câmera frontal inviabilizando a videoconferência.

Por seu turno a Apple continuará a sua estratégia que tanto sucesso lhe tem dado. A empresa mais valiosa da área de tecnologia e uma das mais valiosas a nível mundial continua a ser o alvo a abater. O Android já ultrapassou a activação de dispositivos iOS mas é um mundo dividido por várias marcas.

Conclusão

Numa altura de crise mundial com muitas incertezas à mistura vemos um negócio de muitos milhões a mudar o panorama que tínhamos á uma semana atrás. É muito cedo para qualquer das partes cantar vitória. Existe muita incerteza quanto ao futuro e de como cada uma das empresas vai aguentar o sucesso e o insucesso. Além disto, temos assistido a vários problemas que não esperávamos surgirem. Dou o exemplo do problema da Intel que afectou todas as marcas que produziram motherboards com os seus chipsets e os SSDs que nos últimos meses têm sido algo de muita frustração dos utilizadores devido aos problemas de fiabilidade. São bons exemplos de algo que esperávamos que fosse garantido e que no final não correu como se esperava.

A aposta da Google tem os seus riscos. A credibilidade de Larry Page como CEO após ocupar o lugar onde Eric Schmidt esteve os últimos 10 anos é colocada à prova ao fazer um negócio de valores tão elevados. A atenção está virada para ele. Os lucros de quase dois anos foi investido neste negócio.

As patentes ganharam uma importância e uma forma  de luta que penso que, de todo é agradável e que traga vantagens para alguém. Inclusivamente para as marcas começa a ser mais problema do que vantagem. Podem ganhar uma acção um dia e no dia seguinte terem que pagar uma indemnização maior do que obtiveram. Não me parece que este seja o melhor caminho.

Fica também a ideia que o Android não é gratuito. O preço pago pela Google em desenvolvimento, patentes, etc, tornam o Android bem mais caro do que possivelmente alguma vez antecipou.

Imagem: Engadget